Esta é uma análise um pouco mais aprofundada sobre a dicotomia entre a
pujança econômica do Estado de São Paulo e a precariedade vivida pelos
Policiais Penais, com foco específico na Unidade Prisional de Parelheiros e na
negligência com o efetivo feminino.
São Paulo é
frequentemente descrito como a "locomotiva do Brasil". Detentor do
maior Produto Interno Bruto (PIB) do país, o estado concentra o centro
financeiro da América Latina, uma infraestrutura de transportes robusta e uma
arrecadação tributária que invejaria pequenas nações soberanas. No entanto, ao
atravessar as muralhas das unidades prisionais paulistas, a imagem de
modernidade e eficiência desmorona, revelando um cenário de abandono, anacronismo
e desvalorização humana. A pergunta que ecoa nos corredores úmidos e
superlotados é uma só: como pode o estado mais rico da federação ser tão
negligente com aqueles que garantem a última barreira da segurança pública?
O sistema
penitenciário é o "primo pobre" da segurança. Enquanto investimentos
em tecnologia e armamento chegam, ainda que a passos lentos, às polícias
ostensiva e judiciária, a Polícia Penal sobrevive sob um regime de escassez
crônica. O déficit funcional não é apenas um número em uma planilha
orçamentária; é uma ferida aberta que compromete a integridade física e mental
dos servidores e a própria eficácia da custódia estatal.
A Unidade
Prisional de Parelheiros serve como um estudo de caso pedagógico sobre essa
negligência. Com uma população que ultrapassa 1.500 detentos, a logística
operacional da unidade é um desafio matemático insolúvel. Cada detento tem
direito a visitas, o que multiplica exponencialmente o fluxo de pessoas que
transitam pela portaria nos fins de semana.
A gestão do "jumbo" — as encomendas de alimentos e itens de higiene trazidas pelas famílias — é um dos pontos mais críticos. Imagine a carga de trabalho de uma equipe reduzida para revistar minuciosamente centenas de sacolas, garantindo que nenhum item ilícito adentre a unidade, enquanto a fila externa cresce sob o sol ou a chuva, gerando tensões que o policial, na ponta da linha, precisa mediar sem o apoio institucional devido.
Quando ocorre uma apreensão de entorpecentes ou objetos proibidos, o que deveria ser um sucesso operacional torna-se um pesadelo logístico. O procedimento legal exige o deslocamento de servidores, a elaboração de boletins e a quebra de um fluxo de trabalho que já estava no limite. O sistema não tem "gordura" para lidar com imprevistos; ele opera constantemente no "vermelho".
Dentro deste
cenário de precariedade, a situação das mulheres policiais penais em
Parelheiros beira o desumano. É inaceitável que, em pleno 2026, uma policial
seja designada para a sub-portaria em condições de absoluta vulnerabilidade.
Operar sozinha, desarmada, em um posto que é a primeira linha de contato com o
público externo, é uma falha de segurança elementar.
As tarefas
atribuídas a essa servidora são hercúleas e contraditórias: verificar veículos,
operar portões pesadíssimos que carecem de automação, controlar o acesso de
caminhões de grande porte e manter a comunicação com a muralha e a portaria
central. Tudo isso é feito sob uma infraestrutura que nega o básico: a
inexistência de um banheiro individual para o uso feminino em postos isolados é
uma afronta à dignidade e à saúde da mulher.
A força física
exigida para operar portões manuais defeituosos ao longo de um plantão de 12 ou
24 horas resulta em lesões osteomusculares que o Estado prefere ignorar. A
ausência de um olhar sensível às questões de gênero na arquitetura e na
operação prisional mostra que o Estado de São Paulo ainda enxerga o servidor como
uma peça de reposição, e não como um ser humano.
A indignação
da categoria atingiu um ápice com o edital do concurso público de 2026. Em um
sistema que clama por reforço, a exclusão ou a subutilização de vagas para mulheres
é um erro estratégico e discriminatório. Como o Estado pretende realizar
revistas íntimas (quando necessárias), custódias hospitalares de detentas ou
simplesmente manter a paridade de gênero necessária para a operação de unidades
mistas ou administrativas se ele não repõe o quadro feminino?
A falta de
planejamento para o efetivo feminino sobrecarrega as policiais atuais, que se
veem obrigadas a dobrar turnos e acumular funções, sacrificando sua vida
familiar e sua saúde mental. O "burnout" não é um risco, é uma
realidade onipresente nas unidades prisionais.
Trabalhar para
o estado mais rico do Brasil deveria ser sinônimo de valorização salarial, mas
a realidade é o oposto. Os baixos salários empurram o policial penal para o
"bico" ou para a aceitação de convocações compulsórias para blitzes e
operações especiais.
É aviltante
que o Estado convoque seus servidores para reforçar o policiamento interno sem
oferecer a devida contrapartida em descanso ou remuneração pecuniária justa.
Trabalhar "de graça" ou sob o pretexto de "está na Lei"
enquanto a inflação corrói o poder de compra e o preço dos uniformes — que
muitas vezes o próprio servidor tem que custear por falta de fornecimento
estatal — é uma forma de exploração institucionalizada.
A falta de
retaguarda para proteção e de equipamentos de proteção individual (EPIs)
adequados completa o quadro de abandono. O policial penal de São Paulo sente-se
um exército de um homem (ou mulher) só, lutando contra o crime organizado
dentro das unidades e contra a indiferença burocrática fora delas.
Problemas em
sistemas complexos são inevitáveis, mas a negligência descrita em Parelheiros é
evitável. A automação de portões, a construção de banheiros dignos, a
contratação urgente de mais policiais mulheres e o pagamento de salários
condizentes com o risco da profissão não são "gastos", são
investimentos na paz social.
O Estado de
São Paulo tem os recursos. O que falta é a vontade política de tratar a Polícia
Penal com o respeito que a carreira exige. Até quando essas mulheres e homens
vão aguentar carregar o peso do sistema nas costas sem o apoio do Estado que
juraram servir? A corda está prestes a romper, e quando isso acontece em um
sistema penitenciário, o preço é pago por toda a sociedade.
É hora de o
governo estadual olhar para além dos números do PIB e enxergar o rosto cansado
da policial que, sozinha na sub-portaria de Parelheiros, ainda acredita que sua
missão importa, mesmo quando o Estado parece ter esquecido dela.
Edson Moura
Para servidores policiais penais
que desejam denunciar irregularidades no trabalho, existem canais específicos
que garantem a proteção dos dados pessoais e a confidencialidade dos
denunciantes. O Sistema Ouvidoria Cidadã é um exemplo de canal de denúncia que
permite aos cidadãos registrar suas queixas e manifestações de forma segura e
confidencial.
Além disso, o Ministério Público Federal oferece uma Ouvidoria que recebe representações, reclamações, críticas, sugestões e elogios sobre o atendimento e os serviços prestados por todas as unidades do MPF.
Tribunal Regional do Trabalho da
2ª Região
É importante que os servidores
policiais penais conheçam esses canais de denúncia e utilizem-os para garantir
um ambiente de trabalho justo e ético.
Conselho Nacional do Ministério
Público
Para denúncias de condições de
trabalho e assistência, consulte o Sifuspesp (Sindicato dos Funcionários do
Sistema Prisional de SP).

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