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terça-feira, 13 de janeiro de 2026

Parte 2 - O Abismo entre o Sonho da Posse e a Realidade do Exílio

 

Este segundo ponto aborda a ferida aberta no coração da segurança pública paulista em 2026: a situação dos policiais penais do interior que vivem o "limbo" da provisoriedade na Capital e Região Metropolitana.



O Pesadelo da Provisoriedade

Para o policial penal aprovado no concurso, o dia da posse é, em teoria, o início de uma nova vida. No entanto, para milhares de homens e mulheres vindos do pujante interior de São Paulo, esse sonho rapidamente se transmuta em um pesadelo logístico e emocional. Eles são os "provisórios" — servidores que, por uma necessidade premente da máquina estatal, são alocados nas tensas unidades da Capital e Baixada Santista, enquanto suas raízes permanecem a centenas de quilômetros de distância.

O que era para ser uma etapa temporária tornou-se, em 2026, um estado de incerteza crônica. Alguém nos altos escalões da Secretaria da Administração Penitenciária (SAP) certamente detém os dados dessa diáspora interna, mas a lentidão nas respostas administrativas faz com que a vida desses servidores escorra por entre os dedos, marcada pela espera infinita e pela desagregação total de seus planos de vida.

A primeira face desse pesadelo é econômica. O policial penal do interior, ao ser mantido provisoriamente na Capital, é forçado a sustentar uma estrutura de custos impossível: a "vida em duplicidade". De um lado, o aluguel e as contas de sua casa de origem, onde ficaram sua esposa, filhos ou pais. Do outro, o custo de vida exorbitante da cidade de São Paulo.

O salário, que deveria garantir dignidade, é devorado por aluguéis em bairros periféricos, gastos com alimentação fora de casa e, principalmente, pelo custo do transporte para os retornos nos dias de folga. Muitos se veem obrigados a viver em "repúblicas" improvisadas ou alojamentos precários, dividindo beliches com estranhos após turnos exaustivos de 12 horas.

                O orçamento não apenas não fecha; ele sangra. O resultado é o endividamento, o "bico" clandestino para complementar a renda e uma degradação da qualidade de vida que anula qualquer benefício de ser um funcionário público estadual.

O impacto financeiro, contudo, é pequeno diante da tragédia familiar. O policial penal provisório vive sob a ditadura do calendário de folgas. Ele é um pai ou mãe "de final de semana" — ou, pior, "de folga concentrada". O crescimento dos filhos é acompanhado por telas de celular. A primeira palavra, o primeiro passo, as reuniões escolares e as doenças sazonais são vividas à distância, gerando um sentimento de culpa paralisante.

Os casamentos, submetidos à pressão da solidão e da ausência física, tornam-se frágeis. A esposa ou o marido que ficou no interior carrega o fardo solitário da gestão doméstica, enquanto o policial, na Capital, lida com o isolamento emocional. Em 2026, o índice de divórcios na categoria é um reflexo direto dessa política de lotação. A "espera infinita" pela transferência mata a esperança, e sem esperança, as parcerias de vida se desfazem.

O ambiente de São Paulo, com sua vastidão e anonimato, aliado ao convívio com colegas solteiros e à carência afetiva, torna-se um terreno perigoso. Muitos servidores, outrora homens de família exemplares em suas cidades do interior, acabam sucumbindo ao que chamam de "tentações da capital". A distância de casa remove os freios sociais da comunidade onde cresceram.


O resultado é frequente e trágico: o surgimento de "segundas famílias", o envolvimento em relacionamentos efêmeros que destroem os laços originais e, consequentemente, o surgimento de pensões alimentícias que destroçam o que restava do orçamento. O policial, que deveria ser o garantidor da lei, vê sua própria vida pessoal entrar em colapso jurídico e moral. O sonho da estabilidade torna-se o pesadelo da desonra e da perda de identidade.

O fator mais cruel da provisoriedade é a falta de escolha. Muitos desses policiais nem sequer puderam escolher vagas que minimamente facilitassem seu deslocamento. Estão onde o Estado decidiu, sem uma data de validade para esse exílio. A Secretaria da Administração Penitenciária sabe que um homem sem perspectiva de volta é um homem desmotivado.

A incerteza impede o planejamento. Não se compra uma casa, não se inicia um curso superior, não se faz planos de longo prazo. A vida fica em "suspensão". Esse sofrimento é sobre-humano porque ataca a dignidade do indivíduo de ser dono do próprio destino.

Alguém na Secretaria da Administração Penitenciária paulista deve olhar para além dos números e enxergar os rostos cansados nos portões das unidades da Capital. A gestão de pessoas não pode ser um exercício de frieza burocrática. Cada mês que um policial do interior é mantido provisoriamente e sem perspectiva na Capital, é um tijolo a mais na construção de uma tragédia pessoal.

É urgente que os mecanismos de transferência (LPT e LPTR) e a escolha de vagas sejam humanizados. O Estado não pode continuar a ser o agente que separa pais de filhos e destrói lares em nome de uma conveniência administrativa que ignora o fator humano. O policial penal é a muralha do sistema; se a muralha está emocionalmente rachada, todo o sistema corre perigo.

Continua...

Edson Moura

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