Este segundo ponto aborda a ferida aberta no coração da segurança pública paulista em 2026: a situação dos policiais penais do interior que vivem o "limbo" da provisoriedade na Capital e Região Metropolitana.
O Pesadelo da Provisoriedade
Para o
policial penal aprovado no concurso, o dia da posse é, em teoria, o início de
uma nova vida. No entanto, para milhares de homens e mulheres vindos do pujante
interior de São Paulo, esse sonho rapidamente se transmuta em um pesadelo
logístico e emocional. Eles são os "provisórios" — servidores que,
por uma necessidade premente da máquina estatal, são alocados nas tensas
unidades da Capital e Baixada Santista, enquanto suas raízes permanecem a
centenas de quilômetros de distância.
O que era para
ser uma etapa temporária tornou-se, em 2026, um estado de incerteza crônica.
Alguém nos altos escalões da Secretaria da Administração Penitenciária (SAP)
certamente detém os dados dessa diáspora interna, mas a lentidão nas respostas
administrativas faz com que a vida desses servidores escorra por entre os
dedos, marcada pela espera infinita e pela desagregação total de seus planos de
vida.
A primeira
face desse pesadelo é econômica. O policial penal do interior, ao ser mantido
provisoriamente na Capital, é forçado a sustentar uma estrutura de custos
impossível: a "vida em duplicidade". De um lado, o aluguel e as
contas de sua casa de origem, onde ficaram sua esposa, filhos ou pais. Do
outro, o custo de vida exorbitante da cidade de São Paulo.
O salário, que
deveria garantir dignidade, é devorado por aluguéis em bairros periféricos,
gastos com alimentação fora de casa e, principalmente, pelo custo do transporte
para os retornos nos dias de folga. Muitos se veem obrigados a viver em
"repúblicas" improvisadas ou alojamentos precários, dividindo
beliches com estranhos após turnos exaustivos de 12 horas.
O
orçamento não apenas não fecha; ele sangra. O resultado é o endividamento, o
"bico" clandestino para complementar a renda e uma degradação da
qualidade de vida que anula qualquer benefício de ser um funcionário público
estadual.
O impacto
financeiro, contudo, é pequeno diante da tragédia familiar. O policial penal
provisório vive sob a ditadura do calendário de folgas. Ele é um pai ou mãe
"de final de semana" — ou, pior, "de folga concentrada". O
crescimento dos filhos é acompanhado por telas de celular. A primeira palavra,
o primeiro passo, as reuniões escolares e as doenças sazonais são vividas à
distância, gerando um sentimento de culpa paralisante.
Os casamentos,
submetidos à pressão da solidão e da ausência física, tornam-se frágeis. A
esposa ou o marido que ficou no interior carrega o fardo solitário da gestão
doméstica, enquanto o policial, na Capital, lida com o isolamento emocional. Em
2026, o índice de divórcios na categoria é um reflexo direto dessa política de
lotação. A "espera infinita" pela transferência mata a esperança, e
sem esperança, as parcerias de vida se desfazem.
O ambiente de
São Paulo, com sua vastidão e anonimato, aliado ao convívio com colegas
solteiros e à carência afetiva, torna-se um terreno perigoso. Muitos
servidores, outrora homens de família exemplares em suas cidades do interior,
acabam sucumbindo ao que chamam de "tentações da capital". A
distância de casa remove os freios sociais da comunidade onde cresceram.
O resultado é frequente e trágico: o surgimento de "segundas famílias", o envolvimento em relacionamentos efêmeros que destroem os laços originais e, consequentemente, o surgimento de pensões alimentícias que destroçam o que restava do orçamento. O policial, que deveria ser o garantidor da lei, vê sua própria vida pessoal entrar em colapso jurídico e moral. O sonho da estabilidade torna-se o pesadelo da desonra e da perda de identidade.
O fator mais
cruel da provisoriedade é a falta de escolha. Muitos desses policiais nem
sequer puderam escolher vagas que minimamente facilitassem seu deslocamento.
Estão onde o Estado decidiu, sem uma data de validade para esse exílio. A
Secretaria da Administração Penitenciária sabe que um homem sem perspectiva de
volta é um homem desmotivado.
A incerteza
impede o planejamento. Não se compra uma casa, não se inicia um curso superior,
não se faz planos de longo prazo. A vida fica em "suspensão". Esse
sofrimento é sobre-humano porque ataca a dignidade do indivíduo de ser dono do
próprio destino.
Alguém na
Secretaria da Administração Penitenciária paulista deve olhar para além dos
números e enxergar os rostos cansados nos portões das unidades da Capital. A
gestão de pessoas não pode ser um exercício de frieza burocrática. Cada mês que
um policial do interior é mantido provisoriamente e sem perspectiva na Capital,
é um tijolo a mais na construção de uma tragédia pessoal.
É urgente que
os mecanismos de transferência (LPT e LPTR) e a escolha de vagas sejam
humanizados. O Estado não pode continuar a ser o agente que separa pais de
filhos e destrói lares em nome de uma conveniência administrativa que ignora o
fator humano. O policial penal é a muralha do sistema; se a muralha está
emocionalmente rachada, todo o sistema corre perigo.
Continua...
Edson Moura

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