Esta terceira e talvez não última parte aborda o dilema ético e emocional dos que ficam, a fraternidade nascida na adversidade e a perturbadora suspeita de que o sofrimento humano seja utilizado como ferramenta de controle político pela Secretaria da Administração Penitenciária (SAP) de São Paulo.
No cotidiano
sombrio das unidades prisionais da Capital e Região Metropolitana, nasce um
fenômeno paradoxal: a fraternidade do exílio. Nós, que compartilhamos o rádio,
a vigilância das galerias e o peso da farda, acabamos por nos tornar a família
imediata daqueles colegas que o destino — ou a burocracia — trouxe do interior.
Entre um café frio e uma contagem de presos, ouvimos suas lamentações,
conhecemos os nomes de seus filhos por fotografias e testemunhamos o brilho nos
olhos que se apaga a cada lista de transferência que não sai.
O laço que
criamos é profundo. Queremos que fiquem, pois o bom colega é o esteio na hora
da crise, é o braço forte na intervenção e a voz amiga no isolamento. No
entanto, o nosso lado humano, aquele que ainda não foi calejado pelo sistema,
grita o oposto: desejamos que aeles partam. Desejamos que arrumem suas malas,
entreguem seus acautelamentos e peguem a rodovia rumo ao oeste, ao norte ou ao
sul do estado, de volta para onde o coração deles realmente reside.
Esse conflito
de querer o bem do amigo (sua partida) e o bem da unidade (sua permanência) é o
resumo da esquizofrenia emocional imposta ao policial penal paulista.
Ao tentarmos
entender por que esse ciclo de espera não se encerra, somos confrontados com
uma hipótese sombria: seria a Lista Prioritária de Transferência (LPT) algo
mais do que um instrumento administrativo? Em 2026, a percepção nos corredores
é de que a LPT e a LPTR deixaram de ser processos de fluxo contínuo para se
tornarem moedas de troca política.
É difícil não
enxergar um padrão de tortura deliberada na forma como a Secretaria gere essas
expectativas. A "espera infinita" mencionada nos pontos anteriores
parece ser, muitas vezes, uma válvula de pressão controlada por quem detém o
poder.
Mantém-se o servidor em um estado de carência extrema — financeira, emocional e familiar — para que, no momento oportuno, a concessão do direito básico de voltar para casa pareça um presente generoso do Estado, e não o cumprimento de uma obrigação humanitária.
A suspeita
mais dolorosa reside na correlação entre os movimentos reivindicatórios e a
movimentação das listas. Historicamente, e de forma acentuada neste 2026,
observamos que, toda vez que a categoria dos policiais penais se organiza para
lutar por melhores salários, por um efetivo digno ou pelo reconhecimento da
regulamentação da carreira, a Secretaria "tira a carta da manga".
No ápice de uma possível greve ou mobilização, o Diário Oficial subitamente ganha páginas e páginas de transferências. É o momento em que o tabuleiro se move. O efeito é imediato e devastador para a unidade da classe: a euforia toma conta dos contemplados. Colegas que antes bradavam por justiça salarial, subitamente esquecem as pautas coletivas, pois a possibilidade de abraçar os filhos todas as noites se torna a única prioridade real.
Não se pode
culpar o colega que esquece de tudo ao ver seu nome na lista; a carência a que
ele foi submetido foi tamanha que sua capacidade de resistência política foi
aniquilada pela necessidade afetiva.
Essa parece
ser a estratégia: usar a saudade como um anestésico para a revolta. É uma forma
de "dividir para conquistar", onde o desejo de retorno é usado como
chantagem emocional para desmobilizar a massa.
Recusamo-nos a
acreditar, em nossa essência, que existam mentes tão maquiavélicas no comando
da administração pública que planejem o sofrimento humano para garantir a paz
institucional. No entanto, os fatos são insistentes. Se a gestão fosse técnica
e humana, o fluxo de reposição de pessoal seria constante, e não represado para
momentos de tensão política.
O policial
penal não é uma peça de plástico em um tabuleiro de estratégia; ele é carne,
osso, nervos e sentimentos. Quando o Estado utiliza a LPT como uma
"cenoura" para guiar o comportamento do servidor, ele retira deste a
sua dignidade. O sistema se torna uma máquina de moer gente, onde o combustível
é a esperança de um dia sair dali.
Para nós que
ficamos na Capital, ver um irmão de farda do interior finalmente conseguir sua
transferência é um momento de alegria melancólica. Sabemos que o
"buraco" que ele deixará no plantão será difícil de preencher, que a
sobrecarga de trabalho aumentará e que perderemos um amigo de confiança. Mas o
abraço de despedida é dado com a sinceridade de quem sabe que aquele homem está
sendo resgatado de um cativeiro administrativo.
Entendemos que
a verdadeira liberdade dele começa na praça de pedágio que o leva para longe de
São Paulo. E ficamos aqui, tentando decifrar os enigmas de uma Secretaria que
parece preferir governar pelo cansaço do que pela eficiência, e pela
manipulação das listas do que pelo respeito à vida privada de seus agentes.
Em 2026, o
desafio para a categoria é não permitir que a LPT seja usada como mordaça. A
luta por melhores condições de trabalho e a luta pelo direito de retorno para
casa devem ser uma só. O Estado de São Paulo deve aos seus policiais penais um
sistema de remoção que seja pautado pela previsibilidade e pela ética, e não
por conveniências de gabinete.
Enquanto a
Secretaria da Administração Penitenciária não tratar o policial penal como o
ser humano que ele é, continuaremos a ver esse espetáculo triste: a euforia de
quem foge de um sistema que deveria lhe dar orgulho, mas que muitas vezes lhe
dá apenas cicatrizes. Nós continuaremos aqui, zelando uns pelos outros,
esperando que um dia a "peça do tabuleiro" recupere sua humanidade
perante os olhos de quem governa.
Continua...
Edson moura

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