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segunda-feira, 23 de fevereiro de 2026

Carta Aberta ao Governador e ao Secretário

 


CARTA ABERTA AO EXCELENTÍSSIMO SENHOR GOVERNADOR DO ESTADO E AO SENHOR SECRETÁRIO DE ADMINISTRAÇÃO PENITENCIÁRIA (SAP)

A MORTE PELAS PRÓPRIAS MÃOS NA POLÍCIA PENAL

 

    Excelentíssimos Senhores,

    Escrevo esta carta não com tinta, mas com o peso do luto que invade as unidades prisionais de todo o país e, com especial crueldade, o estado de São Paulo.

    Dirijo-me às Vossas Excelências para denunciar uma tragédia que não ocupa as manchetes dos jornais, mas que está dizimando a nossa tropa: a epidemia de suicídios entre Policiais Penais.

    Os números são aterradores e indiscutíveis. Entre 2020 e 2024, o Brasil registrou 112 suicídios de Policiais Penais. Desse total, São Paulo sozinho concentra uma fatia sangrenta: 30 servidores tiraram a própria vida. É preciso que o Estado encare uma realidade devastadora: hoje, nem mesmo o crime organizado mata tantos policiais penais quanto o próprio sistema. O Estado, por omissão e descaso, tornou-se o carrasco daqueles que juraram manter a ordem.

    O Policial Penal vive em um regime de semiliberdade forçada. Enquanto as autoridades se orgulham de estatísticas de apreensões e controle, ignoram que o "viver de plantão" destruiu a saúde mental da categoria. O cenário é de um esgotamento absoluto.

    Operamos sob escalas exaustivas, em ambientes onde a insalubridade é extrema. Convivemos com o mofo, o calor insuportável, o barulho ensurdecedor e a ameaça biológica constante. O corpo adoece, mas é a alma que sucumbe ao peso de ser o para-choque entre um Estado inerte e uma massa carcerária em ebulição.

    Senhor Governador, Senhor Secretário, a demora nas transferências é uma tortura psicológica. Temos milhares de pais e mães de família lotados a centenas de quilômetros de seus lares. O servidor passa seus dias de folga cruzando rodovias, exausto, apenas para ver os filhos crescerem por algumas horas. Esse desenraizamento destrói casamentos e vínculos afetivos, deixando o policial em uma solidão profunda, terreno fértil para a depressão.

    O policial penal enfrenta diariamente a sombra do crime organizado. No entanto, o medo do revide externo é superado pelo desamparo interno. Quando um policial adoece mentalmente, ele é visto como um "problema administrativo" e não como um ser humano. O estigma de procurar ajuda psicológica em um ambiente de rigidez militarizada faz com que muitos sofram em silêncio até o último gatilho.

    A Responsabilidade é de Quem Governa.

    Não podemos mais aceitar que o suicídio seja tratado como uma "fatalidade individual". Trata-se de uma patologia institucional. Cada vez que o Estado nega uma transferência justa, cada vez que ignora a necessidade de reforço no efetivo para aliviar a sobrecarga, e cada vez que mantém unidades prisionais em condições sub-humanas de trabalho, ele empurra o policial para o abismo.

    Quantos mais precisarão morrer para que a saúde mental da Polícia Penal seja tratada como prioridade de segurança pública? A morte de 30 colegas em São Paulo não é um dado estatístico; são 30 cadeiras vazias no jantar de Natal, 30 fardas dobradas sobre caixões, 30 gritos de socorro que as Vossas Excelências fingiram não ouvir.

 


    Exigimos Senhor Governador e Senhor Secretário...

    A aceleração imediata dos processos de transferência (LPT/LPTR) para humanizar a vida do servidor;

    Programas de apoio psicológico proativos, profiláticos e sigilosos dentro das unidades;

    A revisão das jornadas exaustivas e a melhoria real das condições de higiene e segurança no trabalho.

    Governador, Secretário: o sangue desses 112 homens e mulheres também mancha a estrutura da Secretaria. O silêncio dos muros não pode mais abafar o choro das viúvas e dos órfãos.

    Pela vida de quem protege a sociedade. Pela dignidade da Polícia Penal.

    Basta de mortes. Basta de indiferença.

Edson Moura (Policial Penal em Parelheiros)

Um comentário:

  1. Sua carta é forte, legítima e carregada de dor real. Responderei com uma análise bíblica, pastoral e teológica — não para suavizar a denúncia, mas para fundamentá-la espiritualmente.

    A Escritura é absolutamente clara quanto à responsabilidade das autoridades públicas. Paulo afirma:

    “Porque os magistrados não são terror para as boas obras, mas para as más… é ministro de Deus para o teu bem.” (Romanos 13.3-4)

    A autoridade civil, segundo a teologia cristã, não é apenas administrativa; é ministerial. Ela exerce um mandato moral diante de Deus. Quando o Estado falha em proteger a saúde física e mental de seus servidores, ele não apenas falha politicamente — ele falha espiritualmente em sua vocação.

    O Antigo Testamento é ainda mais incisivo. Deus adverte governantes por negligência:

    “Ai dos pastores que destroem e dispersam as ovelhas do meu pasto.” (Jeremias 23.1)

    Aqui, “pastores” não são apenas líderes religiosos; são governantes. A omissão que leva à morte não é neutralidade — é responsabilidade moral.

    O suicídio, biblicamente, não é tratado como estatística, mas como expressão extrema de desespero humano. A Escritura registra casos de homens que tiraram a própria vida (Saul, Aitofel, Judas), sempre em contextos de colapso emocional profundo. A Bíblia não romantiza o ato, mas também não o reduz a fraqueza simplista. Ele surge onde há abandono, culpa, opressão ou desesperança.

    O que sua carta denuncia é algo que a teologia chama de pecado estrutural. Não é apenas decisão individual; é ambiente adoecido. Quando jornadas são desumanas, quando transferências são negadas, quando o servidor é tratado como número e não como pessoa, cria-se um sistema que esmaga.

    Jesus declarou:

    “O ladrão vem somente para roubar, matar e destruir; eu vim para que tenham vida.” (João 10.10)

    Qualquer estrutura que produz morte sistemática contradiz o propósito divino de preservação da vida. A vida humana é sagrada porque carrega a imagem de Deus (Gênesis 1.27). Isso inclui o policial penal.

    Há também uma dimensão pastoral importante. A cultura de silêncio emocional dentro de corporações militarizadas muitas vezes impede que homens e mulheres confessem fragilidade. Contudo, a Escritura ensina:

    “Levai as cargas uns dos outros.” (Gálatas 6.2)

    Quando a instituição não cria espaço seguro para isso, ela força o sofrimento para o isolamento — e isolamento prolongado é terreno fértil para a desesperança.

    John Stott afirmava que a justiça social não é acessório do Evangelho, mas consequência inevitável da fé autêntica. Já Dietrich Bonhoeffer escreveu que o silêncio diante da injustiça é cumplicidade. Sua carta, portanto, não é rebeldia: é denúncia profética.

    Ao mesmo tempo, é preciso afirmar algo com clareza pastoral: nenhuma estrutura, por mais opressiva, possui autoridade final sobre a alma. O cristianismo proclama que mesmo no vale da sombra da morte (Salmo 23.4), Deus não abandona. A igreja tem responsabilidade de estar presente nesses contextos — não apenas com discurso, mas com cuidado concreto.

    A responsabilidade é dupla:

    • O Estado deve reformar estruturas.
    • A comunidade de fé deve acolher e sustentar emocionalmente seus membros.

    Ignorar a saúde mental dos policiais penais é falhar com a segurança pública e com a dignidade humana. Mas também é falhar diante de Deus, que exige justiça:

    “Aprendei a fazer o bem; praticai o que é reto; ajudai o oprimido.” (Isaías 1.17)

    Sua carta carrega tom profético. Profetas não falam por ressentimento; falam porque a vida está sendo perdida.

    Que essa denúncia não seja apenas um grito, mas um chamado à responsabilidade moral.

    E que, acima de qualquer sistema, cada servidor saiba que sua vida tem valor infinito diante de Deus — valor que nenhuma estatística pode reduzir.

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