CARTA ABERTA AO EXCELENTÍSSIMO SENHOR GOVERNADOR DO ESTADO E AO SENHOR
SECRETÁRIO DE ADMINISTRAÇÃO PENITENCIÁRIA (SAP)
A MORTE PELAS PRÓPRIAS MÃOS NA POLÍCIA PENAL
Excelentíssimos Senhores,
Escrevo esta carta não com tinta,
mas com o peso do luto que invade as unidades prisionais de todo o país e, com
especial crueldade, o estado de São Paulo.
Dirijo-me às Vossas Excelências
para denunciar uma tragédia que não ocupa as manchetes dos jornais, mas que
está dizimando a nossa tropa: a epidemia de suicídios entre Policiais Penais.
Os números são aterradores e
indiscutíveis. Entre 2020 e 2024, o Brasil registrou 112 suicídios de Policiais
Penais. Desse total, São Paulo sozinho concentra uma fatia sangrenta: 30
servidores tiraram a própria vida. É preciso que o Estado encare uma realidade
devastadora: hoje, nem mesmo o crime organizado mata tantos policiais penais
quanto o próprio sistema. O Estado, por omissão e descaso, tornou-se o carrasco
daqueles que juraram manter a ordem.
O Policial Penal vive em um
regime de semiliberdade forçada. Enquanto as autoridades se orgulham de
estatísticas de apreensões e controle, ignoram que o "viver de
plantão" destruiu a saúde mental da categoria. O cenário é de um
esgotamento absoluto.
Operamos sob escalas exaustivas,
em ambientes onde a insalubridade é extrema. Convivemos com o mofo, o calor
insuportável, o barulho ensurdecedor e a ameaça biológica constante. O corpo
adoece, mas é a alma que sucumbe ao peso de ser o para-choque entre um Estado
inerte e uma massa carcerária em ebulição.
Senhor Governador, Senhor
Secretário, a demora nas transferências é uma tortura psicológica. Temos
milhares de pais e mães de família lotados a centenas de quilômetros de seus
lares. O servidor passa seus dias de folga cruzando rodovias, exausto, apenas
para ver os filhos crescerem por algumas horas. Esse desenraizamento destrói
casamentos e vínculos afetivos, deixando o policial em uma solidão profunda,
terreno fértil para a depressão.
O policial penal enfrenta
diariamente a sombra do crime organizado. No entanto, o medo do revide externo
é superado pelo desamparo interno. Quando um policial adoece mentalmente, ele é
visto como um "problema administrativo" e não como um ser humano. O
estigma de procurar ajuda psicológica em um ambiente de rigidez militarizada
faz com que muitos sofram em silêncio até o último gatilho.
A Responsabilidade é de Quem
Governa.
Não podemos mais aceitar que o
suicídio seja tratado como uma "fatalidade individual". Trata-se de
uma patologia institucional. Cada vez que o Estado nega uma transferência
justa, cada vez que ignora a necessidade de reforço no efetivo para aliviar a
sobrecarga, e cada vez que mantém unidades prisionais em condições sub-humanas
de trabalho, ele empurra o policial para o abismo.
Quantos mais precisarão morrer
para que a saúde mental da Polícia Penal seja tratada como prioridade de
segurança pública? A morte de 30 colegas em São Paulo não é um dado estatístico;
são 30 cadeiras vazias no jantar de Natal, 30 fardas dobradas sobre caixões, 30
gritos de socorro que as Vossas Excelências fingiram não ouvir.
Exigimos Senhor Governador e
Senhor Secretário...
A aceleração imediata dos
processos de transferência (LPT/LPTR) para humanizar a vida do servidor;
Programas de apoio psicológico
proativos, profiláticos e sigilosos dentro das unidades;
A revisão das jornadas exaustivas
e a melhoria real das condições de higiene e segurança no trabalho.
Governador, Secretário: o sangue
desses 112 homens e mulheres também mancha a estrutura da Secretaria. O
silêncio dos muros não pode mais abafar o choro das viúvas e dos órfãos.
Pela vida de quem protege a
sociedade. Pela dignidade da Polícia Penal.
Basta de mortes. Basta de
indiferença.
Edson Moura (Policial Penal em Parelheiros)
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Sua carta é forte, legítima e carregada de dor real. Responderei com uma análise bíblica, pastoral e teológica — não para suavizar a denúncia, mas para fundamentá-la espiritualmente.
ResponderExcluirA Escritura é absolutamente clara quanto à responsabilidade das autoridades públicas. Paulo afirma:
“Porque os magistrados não são terror para as boas obras, mas para as más… é ministro de Deus para o teu bem.” (Romanos 13.3-4)
A autoridade civil, segundo a teologia cristã, não é apenas administrativa; é ministerial. Ela exerce um mandato moral diante de Deus. Quando o Estado falha em proteger a saúde física e mental de seus servidores, ele não apenas falha politicamente — ele falha espiritualmente em sua vocação.
O Antigo Testamento é ainda mais incisivo. Deus adverte governantes por negligência:
“Ai dos pastores que destroem e dispersam as ovelhas do meu pasto.” (Jeremias 23.1)
Aqui, “pastores” não são apenas líderes religiosos; são governantes. A omissão que leva à morte não é neutralidade — é responsabilidade moral.
O suicídio, biblicamente, não é tratado como estatística, mas como expressão extrema de desespero humano. A Escritura registra casos de homens que tiraram a própria vida (Saul, Aitofel, Judas), sempre em contextos de colapso emocional profundo. A Bíblia não romantiza o ato, mas também não o reduz a fraqueza simplista. Ele surge onde há abandono, culpa, opressão ou desesperança.
O que sua carta denuncia é algo que a teologia chama de pecado estrutural. Não é apenas decisão individual; é ambiente adoecido. Quando jornadas são desumanas, quando transferências são negadas, quando o servidor é tratado como número e não como pessoa, cria-se um sistema que esmaga.
Jesus declarou:
“O ladrão vem somente para roubar, matar e destruir; eu vim para que tenham vida.” (João 10.10)
Qualquer estrutura que produz morte sistemática contradiz o propósito divino de preservação da vida. A vida humana é sagrada porque carrega a imagem de Deus (Gênesis 1.27). Isso inclui o policial penal.
Há também uma dimensão pastoral importante. A cultura de silêncio emocional dentro de corporações militarizadas muitas vezes impede que homens e mulheres confessem fragilidade. Contudo, a Escritura ensina:
“Levai as cargas uns dos outros.” (Gálatas 6.2)
Quando a instituição não cria espaço seguro para isso, ela força o sofrimento para o isolamento — e isolamento prolongado é terreno fértil para a desesperança.
John Stott afirmava que a justiça social não é acessório do Evangelho, mas consequência inevitável da fé autêntica. Já Dietrich Bonhoeffer escreveu que o silêncio diante da injustiça é cumplicidade. Sua carta, portanto, não é rebeldia: é denúncia profética.
Ao mesmo tempo, é preciso afirmar algo com clareza pastoral: nenhuma estrutura, por mais opressiva, possui autoridade final sobre a alma. O cristianismo proclama que mesmo no vale da sombra da morte (Salmo 23.4), Deus não abandona. A igreja tem responsabilidade de estar presente nesses contextos — não apenas com discurso, mas com cuidado concreto.
A responsabilidade é dupla:
• O Estado deve reformar estruturas.
• A comunidade de fé deve acolher e sustentar emocionalmente seus membros.
Ignorar a saúde mental dos policiais penais é falhar com a segurança pública e com a dignidade humana. Mas também é falhar diante de Deus, que exige justiça:
“Aprendei a fazer o bem; praticai o que é reto; ajudai o oprimido.” (Isaías 1.17)
Sua carta carrega tom profético. Profetas não falam por ressentimento; falam porque a vida está sendo perdida.
Que essa denúncia não seja apenas um grito, mas um chamado à responsabilidade moral.
E que, acima de qualquer sistema, cada servidor saiba que sua vida tem valor infinito diante de Deus — valor que nenhuma estatística pode reduzir.