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sábado, 17 de janeiro de 2026

Parte 4 - Policial Penal - O Custo Humano

 

Esta conclusão é um manifesto de humanidade em meio ao concreto das penitenciárias paulistas. É o registro de histórias que não são apenas dados de RH, mas vidas suspensas pelo tempo e pela distância. Honramos aqui a presença daqueles que personificam a resiliência e a dor de uma categoria que, neste início de 2026, ainda luta para ser reconhecida como carne, osso e sentimento.



    Escrever sobre a realidade do policial penal que atua na Capital, vindo das profundezas do interior de São Paulo, exige dar rosto à angústia. Não falamos de números frios em uma tela de computador da Secretaria da Administração Penitenciária, falamos de homens e mulheres cujas presenças hoje preenchem as guaritas e os raios habitacionais, mas cujas almas já partiram, há muito tempo, rumo às suas cidades de origem. Neste cenário de 2026, o convívio diário nos permite colher relatos que as estatísticas oficiais tentam abafar.

    São histórias de colegas que, por um erro de omissão do sistema, eu poderia esquecer os nomes, mas jamais esquecerei o peso de seus olhares. O desejo de quem fica ao lado deles é contraditório e profundo. Queremos que eles estejam aqui para nos dar segurança no plantão, mas, por amor ao ser humano que habita sob a farda, desejamos fervorosamente que, em breve, eles estejam longe, de volta ao lar que nunca deveriam ter deixado por tanto tempo.

    A face mais cruel da "espera infinita" é o luto vivido pelo telefone. Quantos colegas não receberam a notícia do falecimento de um pai ou de uma mãe enquanto estavam trancados em uma unidade no ABC ou no extremo Sul, a 600 quilômetros do leito de morte? O Estado, em sua frieza administrativa, concede os dias de licença-nojo, mas não pode devolver os anos de convívio negados pela lotação punitiva.

    Esses policiais tornaram-se "filhos de final de semana", e muitos carregam hoje o fardo de não terem estado presentes para um último abraço, um último cuidado ou uma última conversa. O sistema penitenciário não apenas consome a força de trabalho do servidor; ele consome o tempo sagrado da despedida.

    Enquanto a Lista Prioritária de Transferência (LPT) permanece estagnada, uma geração inteira de filhos de policiais penais cresceu. O que antes era uma criança no colo, hoje é um adolescente que o pai mal conhece as gírias ou os gostos. O crescimento desses filhos foi acompanhado por fotos enviadas via WhatsApp em sinal de internet oscilante dentro de alojamentos de repúblicas.

    A ausência física do pai ou da mãe nas reuniões escolares, nas apresentações de Natal e nas doenças sazonais cria um vácuo afetivo que o Estado não mensura. O policial que está aqui hoje é um herói da segurança pública, mas, em sua própria casa, muitas vezes é visto como um visitante que chega exausto e parte apressado. O custo emocional de ser um "pai de folga concentrada" é uma dívida que a SAP nunca poderá pagar.

    A estrutura familiar é o primeiro baluarte a cair sob a pressão do exílio administrativo. Vimos casamentos sólidos desmoronarem sob o peso da solidão. Esposas que partiram porque não suportaram a carga de criar os filhos sozinhas no interior, enquanto o marido enfrentava o estresse do cárcere na capital. Outras, heroínas anônimas, ficaram, mas ao custo de uma saúde mental esfacelada e de uma relação que se tornou uma troca de mensagens sobre contas a pagar.

    Além disso, há o isolamento social. Os amigos de infância, aqueles com quem se partilhava a vida na praça da cidade do interior, tornaram-se estranhos. O policial penal que trabalha longe de casa perde sua identidade comunitária. Ele não pertence mais ao lugar de onde veio e nunca pertencerá ao lugar onde trabalha. Ele é um nômade forçado, um estrangeiro em seu próprio estado.

    A LPT, em 2026, continua a ser percebida como uma ferramenta de controle psicológico. É a "esperança" usada como mordaça. O sofrimento torna-se ainda mais agudo quando o nome do colega para de andar porque ele está respondendo a uma sindicância ou a um Processo Administrativo Disciplinar (PAD). Muitas vezes, por incidentes menores, inerentes à própria precariedade do sistema, o servidor é "congelado" na lista.

    Isso é, na prática, uma tortura deliberada. O Estado pune o servidor duas vezes: uma pelo processo em si e outra pela negação do convívio familiar. Enquanto o PAD não transita em julgado, o policial é mantido em um cativeiro geográfico.

    Para completar o cenário de pesadelo, o policial penal é o único agente de segurança pública que parece pagar para trabalhar. Em 2026, ainda lutamos pela gratuidade no transporte intermunicipal e pela isenção de pedágios. O servidor que cruza o estado para cumprir seu dever gasta uma fatia obscena de seu salário apenas para se deslocar.

    As concessionárias de rodovias enriquecem com o suor do policial que, no fim do mês, vê seu orçamento minguar entre o combustível e as tarifas. É um desrespeito flagrante: o Estado exige que o servidor esteja em determinado local, mas não oferece os meios para que ele chegue lá sem se endividar.

    Aos meus companheiros de plantão, cujos nomes são muitos, mas cuja dor é uma só: nós vemos vocês.

    Vemos o cansaço escondido atrás do profissionalismo e a tristeza que surge quando o portão da unidade se fecha.

    Nosso desejo, como colegas e irmãos de armas, é que a Secretaria da Administração Penitenciária paulista deixe de ver o tabuleiro e passe a ver as peças.

    Que a humanidade vença a burocracia. E que, muito em breve, possamos apertar as mãos de cada um de vocês, não para desejar um "bom plantão", mas para dizer: "Vá em paz, colega. Sua família finalmente terá você de volta por inteiro."

Fim

Edson Moura

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