Esta conclusão é um manifesto de
humanidade em meio ao concreto das penitenciárias paulistas. É o registro de
histórias que não são apenas dados de RH, mas vidas suspensas pelo tempo e pela
distância. Honramos aqui a presença daqueles que personificam a resiliência e a
dor de uma categoria que, neste início de 2026, ainda luta para ser reconhecida
como carne, osso e sentimento.
Escrever sobre a realidade do
policial penal que atua na Capital, vindo das profundezas do interior de São
Paulo, exige dar rosto à angústia. Não falamos de números frios em uma tela de
computador da Secretaria da Administração Penitenciária, falamos de homens e
mulheres cujas presenças hoje preenchem as guaritas e os raios habitacionais,
mas cujas almas já partiram, há muito tempo, rumo às suas cidades de origem.
Neste cenário de 2026, o convívio diário nos permite colher relatos que as
estatísticas oficiais tentam abafar.
São histórias de colegas que, por
um erro de omissão do sistema, eu poderia esquecer os nomes, mas jamais
esquecerei o peso de seus olhares. O desejo de quem fica ao lado deles é
contraditório e profundo. Queremos que eles estejam aqui para nos dar segurança
no plantão, mas, por amor ao ser humano que habita sob a farda, desejamos
fervorosamente que, em breve, eles estejam longe, de volta ao lar que nunca
deveriam ter deixado por tanto tempo.
A face mais cruel da "espera
infinita" é o luto vivido pelo telefone. Quantos colegas não receberam a
notícia do falecimento de um pai ou de uma mãe enquanto estavam trancados em
uma unidade no ABC ou no extremo Sul, a 600 quilômetros do leito de morte? O
Estado, em sua frieza administrativa, concede os dias de licença-nojo, mas não
pode devolver os anos de convívio negados pela lotação punitiva.
Esses policiais tornaram-se
"filhos de final de semana", e muitos carregam hoje o fardo de não
terem estado presentes para um último abraço, um último cuidado ou uma última
conversa. O sistema penitenciário não apenas consome a força de trabalho do
servidor; ele consome o tempo sagrado da despedida.
Enquanto a Lista Prioritária de
Transferência (LPT) permanece estagnada, uma geração inteira de filhos de policiais
penais cresceu. O que antes era uma criança no colo, hoje é um adolescente que
o pai mal conhece as gírias ou os gostos. O crescimento desses filhos foi
acompanhado por fotos enviadas via WhatsApp em sinal de internet oscilante
dentro de alojamentos de repúblicas.
A ausência física do pai ou da
mãe nas reuniões escolares, nas apresentações de Natal e nas doenças sazonais
cria um vácuo afetivo que o Estado não mensura. O policial que está aqui hoje é
um herói da segurança pública, mas, em sua própria casa, muitas vezes é visto
como um visitante que chega exausto e parte apressado. O custo emocional de ser
um "pai de folga concentrada" é uma dívida que a SAP nunca poderá
pagar.
A estrutura familiar é o primeiro
baluarte a cair sob a pressão do exílio administrativo. Vimos casamentos
sólidos desmoronarem sob o peso da solidão. Esposas que partiram porque não
suportaram a carga de criar os filhos sozinhas no interior, enquanto o marido
enfrentava o estresse do cárcere na capital. Outras, heroínas anônimas,
ficaram, mas ao custo de uma saúde mental esfacelada e de uma relação que se
tornou uma troca de mensagens sobre contas a pagar.
Além disso, há o isolamento
social. Os amigos de infância, aqueles com quem se partilhava a vida na praça
da cidade do interior, tornaram-se estranhos. O policial penal que trabalha
longe de casa perde sua identidade comunitária. Ele não pertence mais ao lugar
de onde veio e nunca pertencerá ao lugar onde trabalha. Ele é um nômade
forçado, um estrangeiro em seu próprio estado.
A LPT, em 2026, continua a ser
percebida como uma ferramenta de controle psicológico. É a
"esperança" usada como mordaça. O sofrimento torna-se ainda mais
agudo quando o nome do colega para de andar porque ele está respondendo a uma
sindicância ou a um Processo Administrativo Disciplinar (PAD). Muitas vezes,
por incidentes menores, inerentes à própria precariedade do sistema, o servidor
é "congelado" na lista.
Isso é, na prática, uma tortura
deliberada. O Estado pune o servidor duas vezes: uma pelo processo em si e
outra pela negação do convívio familiar. Enquanto o PAD não transita em
julgado, o policial é mantido em um cativeiro geográfico.
Para completar o cenário de
pesadelo, o policial penal é o único agente de segurança pública que parece
pagar para trabalhar. Em 2026, ainda lutamos pela gratuidade no transporte
intermunicipal e pela isenção de pedágios. O servidor que cruza o estado para
cumprir seu dever gasta uma fatia obscena de seu salário apenas para se
deslocar.
As concessionárias de rodovias
enriquecem com o suor do policial que, no fim do mês, vê seu orçamento minguar
entre o combustível e as tarifas. É um desrespeito flagrante: o Estado exige
que o servidor esteja em determinado local, mas não oferece os meios para que
ele chegue lá sem se endividar.
Aos meus companheiros de plantão,
cujos nomes são muitos, mas cuja dor é uma só: nós vemos vocês.
Vemos o cansaço escondido atrás
do profissionalismo e a tristeza que surge quando o portão da unidade se fecha.
Nosso desejo, como colegas e irmãos
de armas, é que a Secretaria da Administração Penitenciária paulista deixe de
ver o tabuleiro e passe a ver as peças.
Que a humanidade vença a
burocracia. E que, muito em breve, possamos apertar as mãos de cada um de
vocês, não para desejar um "bom plantão", mas para dizer: "Vá em
paz, colega. Sua família finalmente terá você de volta por inteiro."
Fim
Edson Moura
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