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domingo, 11 de janeiro de 2026

A Ética do Possível: O Policial Penal e a Engrenagem da Ressocialização

 

Por Edson Moura

Ninguém está sendo obrigado a assumir a responsabilidade messiânica de reintegrar, sozinho, um delinquente à sociedade. Não se trata de uma imposição romântica ou de um fardo hercúleo colocado sobre os ombros de quem já carrega o peso de uma farda, de uma arma e de uma rotina insalubre. No entanto, parece haver um ruído persistente na comunicação dentro das nossas unidades prisionais e academias de polícia. Não é possível que eu não consiga me fazer entender após tanto tempo de debate. Por isso, tentarei ser o mais pedagógico possível, despindo-me de juridiquês e indo direto à medula do que significa ser um operador da segurança pública no sistema penitenciário moderno.

Vamos começar com uma analogia simples: pegar um papel de bala no chão não faz de você um gari. Você não se torna parte da infraestrutura de limpeza urbana, não recebe por isso, nem assume a carreira de zeladoria da cidade por um gesto isolado de civilidade. Da mesma forma, um pequeno ato, inserido no complexo e multifacetado processo que é a ressocialização de um apenado, não irá fazer de você um "correria de bandido". Onde está a dificuldade de entender isso? Por que o estigma da colaboração com o "inimigo" surge toda vez que se fala em dignidade, em educação ou em um tratamento penal que busque algo além do simples enclausuramento?

A ressocialização não é um evento; é um processo. E, como todo processo humano, ele é feito de microgestos.

A Parábola da Estrela-do-Mar e o Valor da Unidade

Para ilustrar o que tento dizer, recordo-me de uma história que muitos conhecem, mas poucos aplicam à realidade dos pátios e galerias. Uma vez, um pai, ao levar sua filha para ver o mar pela manhã, logo após uma ressaca violenta, viu milhares de estrelas-do-mar espalhadas na faixa de areia. Elas estavam morrendo ali, secando ao sol, sem conseguir voltar para a água. A menina, sem hesitar, correu, pegou uma das estrelas e a atirou de volta ao mar.

O pai, observando a imensidão da praia coberta de agonia, disse à filha que aquele gesto era inútil, que não mudaria em nada a situação daquelas milhares de estrelas. A menina, com a sabedoria que só a inocência permite, respondeu: "Pai, eu não quero mudar a situação das mil estrelas, mas esta que eu atirei ao mar, essa eu talvez consiga mudar".

Assim é o processo ressocializador. Ele é pequeno, é frágil, é terrivelmente complicado. Precisamos ser honestos: muitos detentos não querem mudança. Muitos já aceitaram sua condição de criminosos, fizeram do crime sua identidade e do sistema sua morada. Outros, porém, talvez não. Nem todos que estão presos são "bandidos" na acepção irrecuperável do termo, e acredito que todos que operam o sistema sabem disso, embora poucos admitam em voz alta. Existem aqueles que foram tragados por uma sucessão de erros, por circunstâncias de miserabilidade ou por escolhas momentâneas desastrosas.

Quando o policial penal enxerga a "estrela" que ainda pode ser devolvida ao mar, ele não está sendo fraco. Ele está sendo profissional.

A Engrenagem das Falhas Coletivas

O sistema prisional brasileiro, e mundial, vive uma sequência de falhas que se alimentam e se retroalimentam. É um ciclo vicioso onde todos os atores parecem ter ensaiado o erro.

O Estado falha miseravelmente ao não capacitar seus policiais de forma integral. Limita-se, muitas vezes, ao treinamento tático, ao tiro, ao uso da força, esquecendo-se de que o policial penal é o gestor de uma crise humana contínua. Os policiais, por sua vez, falham quando não percebem que deixaram o sentimento de vingança assumir o lugar do dever profissional. Frequentemente, nutre-se um ódio contra o delinquente sem sequer saber o que ele fez, apenas pelo que ele representa no imaginário de "mal contra o bem".

Os detentos também falham. Falham ao não perceberem o quanto o sistema prisional é degradante e ao se submeterem às leis internas do crime que os escravizam mais do que as grades do Estado. As famílias falham ao não educarem bem o suficiente seus filhos, ao não imporem limites que mostrem o quão terrível é perder a liberdade. É uma corrente de erros. E o ciclo precisa ser quebrado em algum momento. Se ninguém se dispuser a ser o ponto de ruptura dessa engrenagem de ódio e falência, continuaremos a enxugar gelo, produzindo criminosos mais perigosos a cada saída temporária ou término de pena.


A Evolução que Gerou o Abismo

Há uma reflexão necessária sobre a história da nossa profissão. No passado, o modelo de custódia era diferente. Os policiais precisavam conviver com os detentos de forma muito mais próxima. Era comum ver 500, 800 presos caminhando soltos em grandes pátios junto com dois ou três agentes. Havia risco? Sim, um risco altíssimo e muitas vezes inaceitável. Havia interação entre eles? Constantemente. Essa convivência forçada, apesar de perigosa, permitia um conhecimento mútuo que impedia a total desumanização.

O Estado evoluiu no modo de lidar com o delinquente. Criamos trancas automatizadas, monitoramento por câmeras, protocolos de segurança de "contato zero". No entanto, a pretexto de evoluir e garantir a segurança do servidor, o Estado acabou por criar uma barreira intransponível entre o preso e o agente. O contato humano praticamente se extinguiu.

Não estou dizendo que a automatização é algo ruim — ela salva vidas de colegas todos os dias. Mas esse distanciamento tecnológico e físico exacerbou o que já era uma distância ideológica enorme: o abismo entre "o Policial" e "o Ladrão". Entre o que definimos como o "bem absoluto" e o "mal absoluto".

Para o policial que fica na muralha ou na guarita, que nunca teve um contato direto, o detento deixa de ser um indivíduo para se tornar uma massa amorfa. São mundos diametralmente opostos. O inimigo está lá embaixo, caminhando de um lado para o outro nas quadras, como zumbis em um cenário pós-apocalíptico. Sem nome, sem rosto, sem história.

Essa desumanização atinge seu ápice em momentos críticos, como na escolta hospitalar. Na escolta, pouca coisa muda na mentalidade do servidor endurecido. É o "fecha o cotovelo na cara e anda, ladrão". São 12 horas de custódia em um hospital e, lamentavelmente, tudo o que alguns conseguem pensar e verbalizar diante de um homem algemado a uma maca é: "Esse ladrão não vai morrer não? Já passou da hora".

Este pensamento é nocivo. Ele é contraproducente para a segurança pública e, acima de tudo, é contagioso. Quando um policial deseja a morte do custodiado sob sua guarda, ele abdica de sua função de garantidor do Estado para se tornar um juiz de execução sumária moral. Se o sistema apenas pune e deseja a morte, ele perde sua legitimidade moral para exigir que o egresso respeite a vida alheia quando ganhar a rua.

O Policial Penal do século XXI, e especificamente neste ano de 2026, precisa entender que a ressocialização não é um favor que se faz ao preso; é uma estratégia de segurança para a sociedade. Cada "estrela-do-mar" que conseguimos devolver ao convívio social com uma mentalidade diferente é uma família a menos que será assaltada, é uma vida a menos que será perdida.

Este manual não visa transformar policiais em assistentes sociais, mas sim em profissionais de excelência que compreendem a complexidade de sua missão. A ressocialização é o caminho mais difícil, é o que exige mais inteligência e menos fígado. É entender que, embora o sistema seja falho e retroalimentado por erros de todos os lados, o policial é o único elo capaz de manter a ordem sem perder a humanidade.

Quebremos o ciclo. Não por eles, mas por nós, por nossas famílias e pelo futuro de uma sociedade que não aguenta mais viver entre muros e grades, sejam elas de ferro ou de ódio.


Este texto é uma obra reflexiva destinada à formação ética e técnica de profissionais de segurança pública, integrando o Manual Jurídico do Policial Penal volume 2

 

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