A segurança pública é, por
definição, um pilar de sustentação do Estado Democrático de Direito. Dentro
dessa estrutura, o policial penal atua na ponta mais sensível e invisível do
sistema: o cárcere. No entanto, em São Paulo, uma tragédia silenciosa acompanha
a trajetória de milhares desses servidores. Trata-se do "exílio
administrativo" — a realidade de trabalhar a centenas de quilômetros de
casa, longe da família, dos filhos e do convívio social básico.
Embora o edital do concurso
público seja um contrato de adesão onde o candidato aceita a possibilidade de
ser lotado em qualquer unidade do território estadual, a frieza das letras
jurídicas não alcança a profundidade do desgaste psicológico e físico imposto
pela distância prolongada. Em 2026, com o sistema penitenciário paulista ainda
mais complexo, essa questão deixou de ser apenas um problema logístico para se
tornar uma crise humanitária dentro da própria corporação.
O argumento comum de que "o
policial sabia onde estava entrando" ignora a variável mais cruel do
serviço público: o tempo. Uma coisa é aceitar uma lotação distante por um
período determinado de dois ou três anos, vislumbrando um horizonte de retorno.
Outra, completamente distinta, é viver em uma "espera infinita".
A falta de perspectiva de remoção
transforma o trabalho em uma sentença. O policial penal que reside na capital
ou na região metropolitana, mas é lotado em unidades no extremo oeste paulista
(como Presidente Venceslau ou Ribeirão Preto), enfrenta uma jornada dupla. Ele
não apenas lida com a tensão constante das muralhas e dos raios habitacionais,
mas carrega o peso de saber que sua vida pessoal está em "stand-by".
Esse estado de espera gera um
sofrimento que pode ser classificado como sobre-humano. A ausência nos
aniversários dos filhos, a impossibilidade de cuidar de pais idosos e a erosão
dos laços matrimoniais criam um vácuo afetivo que nenhuma gratificação por
regime especial de trabalho pode compensar. O servidor torna-se um "estrangeiro"
em sua própria terra e um "visitante" em sua própria casa, muitas
vezes conseguindo retornar ao lar apenas nos períodos de folga concentrada,
chegando exausto e psicologicamente drenado.
Um policial penal que opera sob o
signo da frustração e da saudade é um profissional vulnerável. A fadiga crônica
decorrente das horas de estrada (muitas vezes em viagens perigosas durante a
madrugada) diminui os reflexos e a atenção necessária para a vigilância.
A Secretaria da Administração
Penitenciária (SAP) possui dados — ou deveria possuir — que correlacionam a
distância da lotação com os índices de depressão, ansiedade e síndrome de
burnout na categoria. O isolamento social do servidor, que passa seus dias de
trabalho em alojamentos precários ou repúblicas, longe de sua rede de apoio, é
o terreno fértil para o adoecimento. Quando o Estado nega ao seu agente o
direito básico de estar perto de sua família, ele está, na prática, sabotando a
própria eficiência do sistema.
Existe um mecanismo chamado Lista
Prioritária de Transferência (LPT) e a Lista Prioritária de Transferência
Regional (LPTR). No entanto, o fluxo dessas listas em 2026 muitas vezes parece
estagnado pela burocracia ou pela falta de reposição de pessoal.
Alguém nos gabinetes da
Secretaria da Administração Penitenciária paulista certamente tem consciência
dessa realidade. Sabe-se que a rotatividade de pessoal e o desânimo dos novos
ingressantes são alimentados por essa barreira geográfica. Manter um servidor
contra a sua vontade a 600 km de casa, quando há vagas ou possibilidades de
permuta técnica, não é gestão estratégica; é punição velada.
A modernização do sistema
penitenciário não deveria passar apenas por novas tecnologias de monitoramento
ou armamentos, mas por uma gestão de recursos humanos que entenda que o
policial penal é um ser biopsicossocial. A eficiência do cárcere depende da
estabilidade emocional de quem porta a chave.
O fenômeno do "policial
migrante" cria um ciclo de prejuízos. O custo com deslocamento consome boa
parte do salário do servidor, que já lida com a inflação e a defasagem salarial
histórica. Além disso, a economia local das cidades que abrigam os presídios
recebe um profissional que não tem raízes ali, que consome o mínimo necessário
e que, ao primeiro sinal de folga, foge daquela realidade para buscar o
acalento do lar.
A família, que deveria ser o
porto seguro, acaba sofrendo as consequências da irritabilidade e do
distanciamento emocional do policial. O "esperar" torna-se a palavra
de ordem: esperar pela próxima lista, esperar pelo próximo bônus, esperar pela
próxima folga. E, nesse ínterim, a vida passa.
A Secretaria da Administração Penitenciária
precisa encarar o sofrimento desses homens e mulheres como uma prioridade de
gestão. A humanização do sistema deve começar por quem trabalha nele. Ignorar a
dor de quem serve ao Estado longe de suas bases é plantar uma semente de
desagregação que, mais cedo ou mais tarde, floresce em forma de licenças
médicas, baixas produtividades e, no limite, tragédias pessoais.
O policial penal cumpre sua
missão. É hora de o Estado de São Paulo cumprir a sua, garantindo que o direito
à convivência familiar não seja um privilégio de poucos, mas uma realidade
acessível a todos que dedicam suas vidas à manutenção da ordem pública.
Continua...
Edson Moura

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