Por Edson Moura
Escrevo
há mais de vinte anos. A escrita, para mim, nunca foi um adereço ou um
passatempo diletante; é uma necessidade biológica, uma forma de
organizar o caos que a nossa profissão nos impõe. Quando vesti a farda
de Policial Penal, não deixei minha verve literária no vestiário. Pelo
contrário, levei-a comigo para dentro das muralhas e para o asfalto das
escoltas. Sempre zelei pela franqueza e pela transparência — valores
que, ironicamente, parecem entrar em curto-circuito no ambiente em que
operamos.
Eu
gostaria, sinceramente, que meus companheiros de farda tivessem o mesmo
apetite pela literatura que eu cultivo. Que víssemos na palavra uma
ferramenta de libertação e análise. Mas a realidade é um balde de água
gelada. Vivemos a era da atenção fragmentada. A memória do ser humano
atual não parece ser maior do que a de um peixinho dourado em um aquário
de vidro fosco. Escrever um livro, ou sequer um artigo que demande mais
de dois minutos de leitura, é um convite ao ostracismo. Sei que boa
parte do que produzo se dissipa no éter, sem efeito, naufragando no mar
de memes e vídeos rápidos que anestesiam a tropa.
Por
isso, aprendi da maneira mais frustrante a silenciar nos grupos de
trabalho. A lição foi amarga: o mesmo colega que veste a farda comigo,
que divide o espaço confinado da viatura e que, em tese, estaria
disposto a levar um tiro no peito para garantir a minha vida em um
confronto, é o mesmo que "printa" a tela do celular para municiar a
chefia.
Não
consigo decifrar o enigma dessa traição miúda. Meus textos são
assinados. Não me escondo sob o manto covarde do anonimato; minha
digital está em cada linha de crítica, seja ela direcionada a um
superior ou a um par. Involuntariamente, esse colega faz o que eu
desejo: ele leva a crítica ao alvo. Se aponto uma falha na gestão da
Secretaria de Administração Penitenciária (SAP), quero que ela chegue
aos ouvidos de quem decide. O problema não é o destino da mensagem, mas a
natureza do mensageiro.
Sinto
uma pontada de decepção que dói mais que o peso do colete. Não sei quem
é o "companheiro" que age assim, e esse é o ponto nevrálgico do meu
medo. Causa-me calafrios saber que autoridades apuradoras de
sindicâncias e processos administrativos se utilizam desse material
"vazado" para perseguir — e a palavra é exatamente essa: perseguir — quem ousa tecer sequer uma linha de discordância sobre a maneira como a secretaria é conduzida.
Onde
foi parar o espírito de equipe? Será que esses "colegas" não percebem
que estão corroendo o princípio mais sagrado da nossa sobrevivência? Nas
ruas de Parelheiros, estamos expostos, vulneráveis, contando
exclusivamente com o irmão de farda ao lado. No momento do
"procedimento", a única coisa que me separa do abismo é a confiança
absoluta de que aquele homem ao meu lado é minha retaguarda.
Não
me entendam mal: a comunicação de irregularidades é um dever. Se há
crime, se há corrupção, deve-se denunciar. Mas agir como um rato
infiltrado, um espião de corredor que busca ganhar pontos com a cúpula
entregando a opinião sincera de um irmão de armas, é intolerável. Isso
não é lealdade institucional; é servilismo rasteiro.
Minha
fidelidade à Instituição SAP é plena no que tange ao dever e ao
serviço. Mas minha fidelidade e meu respeito maior pertencem ao homem
que está disposto a morrer por mim — e por quem eu morreria. O rato que
printa a tela não compreende que, ao tentar queimar um colega no
tribunal administrativo, ele apaga a luz da confiança que deveria
iluminar nosso próximo combate.
A
caneta pode até incomodar os de cima, mas o "print" do traidor fere o
que temos de mais caro: a certeza de que, na hora do tiro, não haverá
ninguém nos apunhalando pelas costas.

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