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domingo, 22 de março de 2026

O "Rato" na Trincheira

  


    Por Edson Moura
   
    Escrevo há mais de vinte anos. A escrita, para mim, nunca foi um adereço ou um passatempo diletante; é uma necessidade biológica, uma forma de organizar o caos que a nossa profissão nos impõe. Quando vesti a farda de Policial Penal, não deixei minha verve literária no vestiário. Pelo contrário, levei-a comigo para dentro das muralhas e para o asfalto das escoltas. Sempre zelei pela franqueza e pela transparência — valores que, ironicamente, parecem entrar em curto-circuito no ambiente em que operamos.

    Eu gostaria, sinceramente, que meus companheiros de farda tivessem o mesmo apetite pela literatura que eu cultivo. Que víssemos na palavra uma ferramenta de libertação e análise. Mas a realidade é um balde de água gelada. Vivemos a era da atenção fragmentada. A memória do ser humano atual não parece ser maior do que a de um peixinho dourado em um aquário de vidro fosco. Escrever um livro, ou sequer um artigo que demande mais de dois minutos de leitura, é um convite ao ostracismo. Sei que boa parte do que produzo se dissipa no éter, sem efeito, naufragando no mar de memes e vídeos rápidos que anestesiam a tropa.

    Por isso, aprendi da maneira mais frustrante a silenciar nos grupos de trabalho. A lição foi amarga: o mesmo colega que veste a farda comigo, que divide o espaço confinado da viatura e que, em tese, estaria disposto a levar um tiro no peito para garantir a minha vida em um confronto, é o mesmo que "printa" a tela do celular para municiar a chefia.

    Não consigo decifrar o enigma dessa traição miúda. Meus textos são assinados. Não me escondo sob o manto covarde do anonimato; minha digital está em cada linha de crítica, seja ela direcionada a um superior ou a um par. Involuntariamente, esse colega faz o que eu desejo: ele leva a crítica ao alvo. Se aponto uma falha na gestão da Secretaria de Administração Penitenciária (SAP), quero que ela chegue aos ouvidos de quem decide. O problema não é o destino da mensagem, mas a natureza do mensageiro.
Sinto uma pontada de decepção que dói mais que o peso do colete. Não sei quem é o "companheiro" que age assim, e esse é o ponto nevrálgico do meu medo. Causa-me calafrios saber que autoridades apuradoras de sindicâncias e processos administrativos se utilizam desse material "vazado" para perseguir — e a palavra é exatamente essa: perseguir — quem ousa tecer sequer uma linha de discordância sobre a maneira como a secretaria é conduzida.



    Onde foi parar o espírito de equipe? Será que esses "colegas" não percebem que estão corroendo o princípio mais sagrado da nossa sobrevivência? Nas ruas de Parelheiros, estamos expostos, vulneráveis, contando exclusivamente com o irmão de farda ao lado. No momento do "procedimento", a única coisa que me separa do abismo é a confiança absoluta de que aquele homem ao meu lado é minha retaguarda.
Não me entendam mal: a comunicação de irregularidades é um dever. Se há crime, se há corrupção, deve-se denunciar. Mas agir como um rato infiltrado, um espião de corredor que busca ganhar pontos com a cúpula entregando a opinião sincera de um irmão de armas, é intolerável. Isso não é lealdade institucional; é servilismo rasteiro.

    Minha fidelidade à Instituição SAP é plena no que tange ao dever e ao serviço. Mas minha fidelidade e meu respeito maior pertencem ao homem que está disposto a morrer por mim — e por quem eu morreria. O rato que printa a tela não compreende que, ao tentar queimar um colega no tribunal administrativo, ele apaga a luz da confiança que deveria iluminar nosso próximo combate.

    A caneta pode até incomodar os de cima, mas o "print" do traidor fere o que temos de mais caro: a certeza de que, na hora do tiro, não haverá ninguém nos apunhalando pelas costas.

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