A hibristofilia, fenômeno psicológico caracterizado pela atração sexual ou romântica por indivíduos que cometeram crimes graves e violentos, representa um dos maiores desafios de compreensão dentro da criminologia e da psicologia forense contemporâneas. No contexto do sistema prisional, essa parafilia se manifesta através de fluxos intensos de correspondências, visitas íntimas e até casamentos realizados dentro de unidades de segurança máxima. Embora o termo tenha ganhado notoriedade no debate público, sua análise exige um mergulho profundo nas dinâmicas de poder, nos traumas psicológicos e na construção midiática do "criminoso sedutor".
O termo hibristofilia deriva do
grego hybris (ultraje) e philo (afinidade/amor). Popularmente conhecida como a
"Síndrome de Bonnie e Clyde", a condição não é classificada como uma
patologia no DSM-5, mas é estudada como um desvio de preferência sexual onde o
perigo é o principal catalisador do desejo.
Para entender a hibristofilia no
sistema prisional, é preciso segmentá-la em duas categorias principais:
Hibristofilia Passiva: Onde o
indivíduo sente atração pelo criminoso, envia cartas e busca proximidade, mas
não participa dos atos ilícitos.
Hibristofilia Ativa: Onde o
parceiro se torna cúmplice, auxiliando na execução de crimes, na ocultação de
provas ou na fuga, movido pela devoção ao agressor.
A referência histórica mais
emblemática desse fenômeno é o casal Bonnie Parker e Clyde Barrow. Durante a
Grande Depressão nos Estados Unidos, a jovem Bonnie, sem antecedentes criminais
significativos, abandonou sua vida comum para seguir Clyde em uma jornada de
assaltos e assassinatos.
O caso de Bonnie e Clyde ilustra
a hibristofilia ativa. Para Bonnie, o perigo representado por Clyde não era um
impedimento, mas o alicerce do relacionamento. A "glamourização" do
crime pela imprensa da época transformou o casal em figuras folclóricas, um padrão
que se repete até hoje. A narrativa do "amor contra o mundo" serve
como uma blindagem psicológica que impede o hibristofílico de enxergar a
brutalidade real das vítimas de seu parceiro, focando exclusivamente na figura
do infrator como um "rebelde incompreendido".
No cenário brasileiro, o caso de
Francisco de Assis Pereira, conhecido como o "Maníaco do Parque",
oferece um recorte nítido da hibristofilia passiva em larga escala dentro do
sistema prisional. Condenado por uma série de estupros e assassinatos de
mulheres no Parque do Estado, em São Paulo, Francisco recebeu milhares de
cartas de amor após sua prisão.
Mesmo diante da exposição
detalhada de seus crimes bárbaros, muitas mulheres viajavam de diversos estados
para visitá-lo. O Maníaco do Parque chegou a se casar na prisão com uma de suas
admiradoras. Esse comportamento revela um traço comum na hibristofilia: a
fantasia de redenção. Muitas dessas mulheres acreditam possuir uma capacidade
única de "domesticar a fera" ou de enxergar uma bondade que o resto
da sociedade ignora. No ambiente controlado da prisão, o criminoso é visto como
vulnerável, o que alimenta o instinto maternal e a ilusão de controle da
parceira sobre o agressor.
Estudos realizados em presídios
indicam que o perfil das pessoas que desenvolvem hibristofilia frequentemente
envolve históricos de abusos na infância ou relacionamentos anteriores com
figuras de autoridade abusivas. Existem três pilares que sustentam essa atração
no sistema prisional:
Por que isso acontece e o que o
Policial Penal de hoje precisa entender para saber lidar com seus próprios
pensamentos quando se deparar com situações como essas?
Especialistas em psicologia
forense apontam alguns fatores para explicar por que tantas mulheres se
sentiram atraídas pelo Maníaco do Parque que vale a pena reafirmar aqui:
O Narcisismo por Procuração: Ao se relacionar com um criminoso
famoso, a pessoa sai do anonimato. Ela passa a ser "a mulher do bandido
mais perigoso", ganhando uma relevância social (ainda que marginal) que
nunca teve.
O Relacionamento Perfeito e Seguro: Ironicamente, o sistema
prisional oferece uma segurança paradoxal. Como o parceiro está encarcerado, a
mulher sabe exatamente onde ele está 24 horas por dia. Não há o medo do
abandono cotidiano ou da traição nas ruas, e o relacionamento é mantido
puramente no campo da idealização e das palavras trocadas em cartas.
A Síndrome da Bela e a Fera: A crença de que o amor verdadeiro pode
transformar um monstro em um homem civilizado. Essa fantasia confere à mulher
um senso de missão e superioridade moral.
O Impacto no Sistema Prisional e
a Segurança Pública
A presença da hibristofilia gera
desafios operacionais significativos para as administrações penitenciárias.
Indivíduos com hibristofilia ativa podem atuar como "mulas",
transportando drogas, celulares e ordens de facções para dentro e para fora das
unidades.
Além disso, a atenção mediática e
o assédio das admiradoras podem inflar o ego de criminosos psicopatas,
reforçando seu comportamento antissocial em vez de colaborar com a
ressocialização. O sistema muitas vezes se vê incapaz de proibir tais
relacionamentos, uma vez que o direito à visita íntima e à correspondência é
garantido por leis de direitos humanos e execução penal, desde que não haja comprovação
de crime em andamento.
A hibristofilia no sistema
prisional é o ponto de encontro entre a patologia individual e a
espetacularização do mal. Seja na cumplicidade destrutiva de Bonnie e Clyde ou
na adoração cega recebida pelo Maníaco do Parque, o fenômeno revela uma faceta
perturbadora da psique humana: a capacidade de transformar a violência em
objeto de desejo.
Compreender esses mecanismos é
crucial para que o sistema de justiça e saúde mental possa intervir de forma
mais eficaz, protegendo não apenas a sociedade, mas também as pessoas que, por
traumas ou distorções cognitivas, acabam se tornando vítimas secundárias do
carisma perverso daqueles que habitam os cárceres. A "atração pelo
abismo" continua a povoar as galerias das prisões, provando que as grades,
embora contenham o corpo, raramente conseguem bloquear os fluxos distorcidos do
desejo humano. Não é incomum vermos nas filas das visitas aos presos, não
apenas mães, irmãs, e filhas de detentos, muito pelo contrário, moças jovens,
bonitas e visivelmente “bem criadas”, passam horas a fio à espera da
oportunidade de ver seu “amado”. O Policial Penal de hoje, não comporta mais
aquela visão da visita do preso como “marmita” ou outros termos que, duvido,
nunca tenhamos ouvido da boca de um agente.
Façamos então um passeio pela
história, desde muito tempo atrás, e vejamos como vem sendo construída essa
cultura de admiração pelo delinquente, até chegarmos em dias atuais. Mas não
seguiremos uma ordem cronológica exata, pois ainda precisamos falar mais sobre
a hibristofilia. Vejamos alguns casos emblemáticos daqui do Brasil, e de fora.
Da vida real e também da literatura e cinematurgia.
O Caso de Wade Wilson
O Crime: Wilson foi condenado
pelo assassinato brutal de duas mulheres na Flórida em 2019: Kristine Melton e
Diane Ruiz.
Em agosto de 2024, um juiz da
Flórida o sentenciou à morte após o júri recomendar a pena capital por uma
maioria de 9 a 3 e 10 a 2 para cada crime.
Milhares de mulheres ao redor do
mundo, incluindo muitas brasileiras, enviaram cartas ao juiz e inundaram as
redes sociais (como o TikTok) pedindo que sua vida fosse poupada. Muitos desses
pedidos focavam em sua aparência física (tatuagens faciais) e carisma, um
fenômeno psicológico conhecido como hibristofilia (atração por criminosos
perigosos).
Os pedidos formais de clemência
também citavam um suposto histórico de abuso de substâncias, transtornos
mentais e lesões cerebrais.
Pedido para "Furar
Fila": Em uma reviravolta irônica após os pedidos de clemência, em 2025 e
início de 2026, o próprio Wade Wilson peticionou à Justiça para acelerar sua
execução ("furar a fila"), abrindo mão de apelos prolongados para que
a sentença seja cumprida o quanto antes.
Ele permanece no corredor da
morte na Flórida. Embora as petições de fãs continuem a circular online, não
houve interferência legal baseada nesses apelos populares, prevalecendo a
decisão judicial baseada na gravidade dos homicídios.
O caso de Francisco de Assis Pereira
Como já citado anteriormente, o
caso do "Maníaco do Parque", é um dos capítulos mais sombrios da
criminologia brasileira e serve como um estudo de caso clássico sobre a O
Contexto dos Crimes.
Em 1998, Francisco foi preso após
assassinar pelo menos sete mulheres e atacar outras nove no Parque do Estado,
em São Paulo. Ele atraía as vítimas fingindo ser um caça-talentos de modelos,
levando-as para a mata onde as estuprava e estrangulava. Mesmo com a confissão
detalhada e a brutalidade dos atos, o fenômeno que se seguiu à sua prisão
chocou a sociedade.
Logo após sua prisão, Francisco
passou a receber uma avalanche de correspondências na Casa de Detenção. Em
2026, com o resgate histórico desses arquivos por documentários e estudos, os
números impressionam:
Foram milhares de cartas enviadas
por mulheres de todo o Brasil e do exterior. Muitas continham declarações de
amor, propostas de casamento, fotos sensuais e até dinheiro. Algumas mulheres
afirmavam que ele era "incompreendido" ou que o amor delas poderia
"curá-lo".
Em 2002, ele chegou a se casar
com a catarinense Marisa Baqueiro, que se apaixonou por ele através das cartas
e visitas. O relacionamento terminou anos depois.
Até hoje, o caso gera debates jurídicos intensos. Francisco de Assis Pereira foi condenado a mais de 280 anos de prisão, mas a legislação brasileira da época limitava o cumprimento de pena a 30 anos (atualizado para 40 pela Lei Anticrime). Francisco completa 30 anos de prisão em agosto de 2028.
O Impasse Psiquiátrico: Laudos periciais
reiterados indicam que ele é um psicopata com alta periculosidade e
incapacidade de sentir remorso. No entanto, o sistema judiciário brasileiro
discute em 2026 como lidar com sua iminente soltura, já que, legalmente, ele
terá cumprido o tempo máximo, mas clinicamente continua sendo um risco à
sociedade e, possivelmente, alvo de novas abordagens por mulheres que ainda o
idolatram.
O caso do Maníaco do Parque
permanece como o maior exemplo no Brasil de como a figura do
"predador" pode exercer um fascínio inexplicável e perigoso sobre o
imaginário de certas pessoas, desafiando a lógica da segurança pública e da
preservação da própria vida.
O caso de Leonardo Pareja
Esse talvez seja o exemplo mais
emblemático de "bandido galã" na história criminal brasileira,
superando até mesmo o Maníaco do Parque no quesito fascínio e histeria coletiva
feminina durante a década de 1990.
Diferente de Francisco de Assis
(um serial killer de mulheres), Pareja era um assaltante de bancos e sequestrador
que utilizava a inteligência, o deboche e a estética para construir uma persona
de "Robin Hood moderno" ou "anti-herói".
O fascínio das mulheres por
Leonardo Pareja baseou-se em elementos muito específicos que a psicologia e a
sociologia analisaram profundamente:
O Desafio à Autoridade: Em 1996,
durante a rebelião no Presídio Cepaigo (Goiás), Pareja dominou a cena
midiática. Ele bebia uísque, tocava violão e dava entrevistas debochando da
polícia enquanto mantinha autoridades como reféns. Esse arquétipo do rebelde
sem causa exerceu um magnetismo enorme sobre mulheres que viam nele uma figura
de coragem e virilidade.
Pareja não se encaixava no
estereótipo do criminoso comum da época. Era jovem, falava vários idiomas,
tinha boa aparência e era extremamente articulado. Isso permitia que as
mulheres racionalizassem sua atração: elas não estavam apaixonadas por um
"criminoso", mas por um "gênio injustiçado pelo sistema".
Durante seus assaltos e
sequestros, havia relatos de que ele tratava as vítimas com cortesia, chegando
a pedir desculpas. Esse comportamento de "bandido cavalheiro"
alimentava a fantasia da hibristofilia, onde a mulher acredita que, embora ele
seja perigoso para o mundo, será doce e protetor com ela.
Em todas as suas prisões, centenas
de mulheres e adolescentes se aglomeravam para tentar vê-lo, gritar seu nome ou
entregar cartas de amor. Ele recebia milhares de correspondências com pedidos
de casamento e fotos sensuais.
A Diferença entre Pareja e o Maníaco do Parque
Enquanto o Maníaco do Parque
atraía mulheres através de uma pulsão de "salvacionismo" (mulheres
que queriam curar o monstro), Pareja atraía pela admiração e desejo. Ele era
visto como uma estrela do rock do crime. A atração por ele não era baseada no
medo, mas na idealização de um estilo de vida fora das leis e cheio de
adrenalina.
Leonardo Pareja foi assassinado
em 1996, aos 22 anos, por outros detentos dentro do presídio, que se sentiam
eclipsados por sua fama e privilégios. Em 2026, o caso Pareja ainda é citado em
estudos de criminologia midiática para explicar como a espetacularização do
crime pode transformar um criminoso em objeto de desejo. Sua trajetória serve
como um alerta para o sistema penitenciário sobre como líderes carismáticos
podem manipular a opinião pública e o sistema de segurança, utilizando o apoio
popular (especialmente o feminino) como escudo político e midiático.
Se estivesse vivo ou fosse um
caso atual, Pareja provavelmente seria um fenômeno de redes sociais, onde a
estética e a "lacração" sobre a polícia potencializariam ainda mais
esse magnetismo perigoso que mistura criminalidade com sex appeal.
A construção do "bandido
herói" no imaginário popular não é um fenômeno acidental, mas uma
ferramenta narrativa milenar que explora o desejo humano de rebelião contra
sistemas considerados injustos ou opressores. Essa "glamorização" do
crime, que você observa desde Ali Babá até La Casa de Papel, opera através de
uma sofisticada manipulação de valores.
Aqui está uma análise dessa
inversão de valores dividida por arquétipos:
O Arquétipo do "Ladrão
Justo" (Robin Hood e Ali Babá). A raiz dessa admiração está na ideia de
justiça distributiva. Robin Hood estabeleceu o padrão: roubar de quem tem em
excesso (o Estado/Nobreza) para dar aos despossuídos. Ali Babá ganha a simpatia
do público porque ele engana ladrões ainda piores que ele. Nesses casos, o
crime é apresentado como um "mal necessário" ou um ato de reparação
social, o que limpa a consciência de quem admira o criminoso.
No caso de Bonnie e Clyde, a
inversão de valores foca no niilismo romântico. O casal representava a
juventude que se recusava a aceitar a pobreza da Grande Depressão Americana. A
sociedade passa a admirar não o roubo em si, mas a "liberdade" de
viver sem regras, o amor incondicional na adversidade e a adrenalina. Eles se
tornaram ícones de moda e estilo de vida muito antes de serem vistos como
assassinos.
A Família e a Lealdade (Brian e
Toretto - Velozes e Furiosos). Aqui, a inversão ocorre pela substituição da
moral legal pela moral tribal. Dominic Toretto vive sob o código da
"Família". O público perdoa os roubos de carga e a destruição de
patrimônio público porque o valor da "lealdade aos seus" é colocado
acima das leis do Estado. A narrativa foca tanto na amizade e na perícia
técnica (dirigir bem) que o crime se torna apenas o cenário de fundo para o que
parece ser uma vida de virtudes pessoais.
A Genialidade contra o
"Sistema" (O Professor - La Casa de Papel). Esta é a versão moderna e
intelectual da inversão de valores. O Professor não é visto como um assaltante,
mas como um mestre estrategista. A série utiliza um argumento político: se os
bancos centrais "imprimem dinheiro" para salvar bancos, por que o
povo não pode imprimir para si mesmo? Essa "justificativa técnica"
faz com que o espectador torça pelo sucesso do crime, vendo a polícia como a
vilã que defende um sistema financeiro injusto.
Por que a juventude é o alvo principal?
Desde muito cedo, a cultura pop
incute no ideário popular que o status quo é chato, burocrático e opressor,
enquanto o crime (no cinema e na literatura) é:
Estético: Carros caros, roupas de
grife, tatuagens e armas.
Inteligente: Planos mirabolantes
que fazem a polícia parecer incompetente.
Comunitário: Oferece um senso de
pertencimento (a gangue, a família, o bando).
Em 2026, essa inversão atinge um
novo patamar com o "Crime TikTokeado". Criminosos reais utilizam as
mesmas estéticas de Velozes e Furiosos ou La Casa de Papel em vídeos curtos
para atrair jovens.
A ficção fornece a base moral (o
"nós contra eles"), e a realidade entrega a gratificação imediata. O
perigo dessa construção histórica é que ela apaga a vítima: nos filmes de
Toretto ou na jornada de Robin Hood, o sofrimento de quem foi roubado ou
agredido é omitido, deixando apenas o brilho da vitória do "rebelde".
Essa "glamorização" é o
que prepara o terreno psicológico para fenômenos como a atração por figuras
como Leonardo Pareja ou Wade Wilson, onde a estética e a atitude do criminoso
valem mais para o público do que a vida das vítimas.
O fenômeno de artistas como Oruam,
e outros expoentes da cena do Trap e do Funk em 2026, representa a atualização
máxima do arquétipo do "bandido-herói" para a era digital. O que
antes era personificado por Robin Hood ou Leonardo Pareja, agora é canalizado
por jovens que transformam a vivência periférica e o confronto com a lei em um
produto cultural de consumo massivo.
Aqui estão os pontos centrais
dessa narrativa e como ela molda o ideário juvenil hoje:
No caso específico de Oruam, o
fato de ser filho de Marcinho VP (um dos líderes históricos do Comando
Vermelho) não é visto por seus seguidores como um estigma, mas como um
"selo de autenticidade".
Na lógica do sistema, o crime é
uma mancha; na lógica da "narrativa do sistema", o parentesco confere
a ele o status de "príncipe da periferia". Ele transita entre o luxo
extremo e a favela, simbolizando uma vitória contra o destino de pobreza que o
Estado reservaria para jovens negros e periféricos.
A música e a postura desses
artistas constroem uma identidade baseada na resistência à autoridade (policial
e estatal). O uso de correntes de ouro maciço, carros importados e a exibição
de animais exóticos (como o macaco de estimação do artista) servem como troféus
de guerra. A mensagem para o jovem seguidor é: "Eu venci o sistema jogando
pelas regras dele (o dinheiro) sem aceitar a autoridade dele (a lei)".
Nas letras e videoclipes, a força policial
nunca é vista como protetora, mas como uma força de ocupação. Isso gera uma identificação
imediata com milhares de jovens que, na vida real, têm experiências negativas
com a segurança pública.
A legião de garotas que idolatra
esses artistas replica o comportamento de hibristofilia mencionado
anteriormente, mas com uma roupagem de mercado:
Existe uma glamorização do papel da mulher que apoia o homem que desafia o sistema. Ser a namorada ou a fã de um artista que "peita" a lei confere um status de poder e adrenalina.
Diferente do criminoso comum, o
"herói moderno" do Trap ostenta um luxo que o sistema formal
raramente oferece rapidamente a um jovem da periferia. A atração, portanto, é
pelo poder, pela rebeldia e pelo dinheiro.
Inversão de Valores ou Nova Moralidade?
O que a sociedade tradicional
chama de inversão de valores, para esses jovens, é visto como uma nova
moralidade de sobrevivência. Para muitos, Oruam não faz apologia ao crime, mas
sim à "liberdade". Ele se torna um herói porque dá voz ao sentimento
de revolta.
O problema central, sob a ótica
da segurança pública em 2026, é que essa narrativa apaga as consequências
trágicas do crime real (morte, prisão, destruição de famílias) e foca apenas no
bônus (fama, ouro e mulheres).
Diferente de décadas passadas,
onde o acesso ao criminoso era limitado, hoje o jovem acompanha o cotidiano de
artistas que romantizam o crime em tempo real (Instagram, TikTok). Isso cria
uma proximidade perigosa. O herói está a um clique de distância. A fronteira
entre o "personagem artístico" e a "apologia ao crime"
torna-se cada vez mais tênue, dificultando o trabalho de conscientização e
facilitando o recrutamento subjetivo para ideologias que desprezam a ordem
institucional.
Em suma, artistas como Oruam são
os Robin Hoods da era do algoritmo. Eles oferecem aos jovens uma sensação de
pertencimento e vitória que as instituições oficiais (escola, igreja, governo)
muitas vezes falham em prover, consolidando uma cultura onde o "fora da
lei" é o ápice do sucesso e da admiração social.
Edson Moura
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